Macunaíma é o anti-herói tupiniquim clássico: indolente, fraco de espírito, moralmente flexível e dono de um caráter duvidoso. O personagem foi criado pelo genial Mário de Andrade para representar uma parcela dos defeitos mais visíveis dentre aqueles já definitivamente arraigados no modus vivendi do brasileiro mediano. Macunaíma é, portanto, um épico de crítica, uma ilustração inglória da cultura de malandragens, de “jeitinhos” e, muitas vezes, de patifaria pura e simples.
O mito de Macunaíma em nenhum momento deixou de povoar o inconsciente coletivo nacional, e os fatos com que acabamos de nos confrontar na vida política do país servem para evidenciar o quanto ainda estamos distantes de nos desvencilhar de vez desta transgressão cultural tão vexatória.
O triunfo da desonestidade, da impunidade, da criminalidade e da pilantragem está exposto em letras garrafais nas manchetes de todos os jornais de hoje, para desespero e vergonha dos brasileiros honestos e conscientes. Não, não estou dizendo que todos os eleitores que depositaram seus votos em Lula sejam, necessariamente, como ele. Mas é impossível não assinalar a constatação bizarríssima de que o espírito de Macunaíma está longe de abandonar as opiniões, palavras e gestos do povo brasileiro; um povo que deu, mais uma vez, provas de que ética a caráter são conceitos infinitamente relativos para seus delicados intelectos.
Não deixa de ser estarrecedor, ainda, a forma como as coisas se deram: nunca antes o leviatã macunaímico brasileiro havia se manifestado com tamanha intensidade e virulência. Talvez seja um caso único na história da humanidade que um grupo de pessoas comprovadamente envolvidas com crimes como fraude (caso dossiêgate), corrupção ativa e passiva (mensalão, valerioduto, caixa 2, sanguessugas), tráfico de drogas (a campanha de Lula em 2002 recebeu cerca de 5 milhões de dólares da narcoguerrilha colombiana), enriquecimento ilícito (vide Lulinha e Lurian, filhos de Lula), assassinato (caso Celso Daniel), dentre outros crimes execráveis, ainda assim tenha conseguido angariar votos suficientes para legitimar e perpetuar seus crimes por mais 4 anos. A capacidade brasileira de abstrair a ética e relevar o inaceitável nunca foi tão bem evidenciada.
É fato que uma eventual vitória de Geraldo Alckmin neste pleito também não significaria, sob nenhuma hipótese, a instauração repentina de um governo 100% ético, sério e comprometido fielmente com a agenda do verdadeiro crescimento - agenda esta que é composta invariavelmente por medidas hoje tidas como “impopulares”, como uma reforma radical do sistema previdenciário, a retomada dos processos de privatização de estatais mastodônticas e a adoção de uma política externa que retirasse o Brasil da rota furiosa do socialismo de Chávez, Castro e Morales.
As posições de Alckmin a respeito destas questões algumas vezes são um tanto quanto nebulosas e até contraditórias. Contudo, também é preciso reconhecer que o aspecto ético, por si só, já deveria ser mais do que suficiente para que o candidato tucano tivesse vencido essas eleições de forma acachapante. Só seria diferente mesmo numa nação de Macunaímas.
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